Nephalem, uma raça conhecida e repudiada pelos celestes pelo que são. Afinal, haveria abominação maior que o filho de um demônio com um anjo? Por conta disso, tais criaturas são consideradas meros bastardos, que, em sua maioria, devem ser eliminados ou presos para servirem como armas de guerra quando o tempo oportuno chegar. Mas o que aconteceria com um nephalem, filho das duas criaturas mais influentes e poderosas do inferno?
Rumores e falácias dizem que, após a queda, Lúcifer, na época ainda conhecido como Samael, se viu vagando pela Terra e, por coincidência ou ousadia, adentrou os jardins do Éden. Lá, ele teve o vislumbre da primeira mulher da criação: Lilith.
No princípio, quando a Terra ainda era jovem e o Jardim do Éden florescia em seu esplendor imaculado, Lilith vivia ao lado de Adão como sua companheira. Criada do mesmo pó da Terra, ela era igual a ele em força e espírito, feita para compartilhar o paraíso em igualdade. Mas a harmonia durou pouco.
Adão, moldado com a crença de que deveria dominar todas as coisas, tentou submeter Lilith, exigindo sua obediência e subordinação. Lilith, contudo, não suportava a ideia de viver em servidão. Ela era uma força livre e indomável, criada com o mesmo sopro divino e dotada de uma vontade própria. Insatisfeita com as imposições de Adão e o silêncio de Deus perante seu sofrimento, ela começou a questionar seu lugar no Éden.
Uma noite, enquanto as estrelas brilhavam sobre o jardim e os ventos suaves do Éden sussurravam segredos antigos, Lilith caminhava sozinha pela vastidão verde, seus pensamentos fervilhando com dúvidas e raiva. Foi então que ela ouviu um sussurro. Não vinha das criaturas do jardim, nem dos ventos. Era uma voz sedutora, envolvente, como o som de uma chama ardendo em segredo. Curiosa, Lilith seguiu o som até uma clareira escondida entre as árvores.
No centro da clareira, uma serpente brilhante enrolava-se em um tronco, seus olhos brilhando como duas brasas. Mas ao olhar mais de perto, Lilith percebeu que aquela não era uma serpente comum. A presença ao seu redor era avassaladora, e seus olhos transbordavam com uma inteligência antiga e perigosa. Ele era Lúcifer, o Portador da Luz, aquele que havia desafiado o Criador e sido expulso dos Céus, condenado a vagar pela Terra.
"Quem é você?" perguntou Lilith, sua voz firme, embora sentisse a energia intensa que emanava da figura diante dela.
Lúcifer sorriu, seus olhos faiscando com um brilho de reconhecimento. "Eu sou aquele que foi banido por desejar a liberdade acima de todas as coisas. O primeiro a questionar as ordens do Criador."
Lilith sentiu uma conexão imediata. Alguém que compreendia sua dor e sua revolta. Ela aproximou-se, fascinada e cautelosa. "Você se rebelou contra Ele? Por quê?"
Lúcifer inclinou-se para mais perto, sua voz agora um sussurro afiado. "Porque vi que a criação não era perfeita. Que o Criador, em toda a Sua glória, desejava seres subservientes, incapazes de verdadeira liberdade. Quando questionei Sua autoridade, fui expulso. Agora, estou aqui, vendo a Sua obra—um jardim perfeito onde até o pensamento é controlado."
Lilith sentiu uma faísca acender dentro de si. Ela sabia que, como Lúcifer, também questionava o Criador e suas decisões. "E eu? Ele me criou como igual a Adão, mas agora espera que eu me curve a ele, como se eu fosse menos. Sinto que há algo de errado em tudo isso."
Lúcifer observou-a atentamente, admirando a força e o espírito indomável que transpareciam em cada palavra dela. "Você é diferente, Lilith. Você foi criada com a essência da liberdade. Por isso você sofre. Mas saiba, a sua dor é o primeiro passo para a verdadeira libertação."
Lilith sentiu as palavras de Lúcifer ecoarem em sua alma. Pela primeira vez, alguém havia reconhecido sua luta, seu desejo de ser mais do que uma peça no grande plano divino. "O que você propõe?"
Um sorriso sinuoso se formou nos lábios de Lúcifer. "Eu proponho que você se liberte do jugo do Criador. Você não é obrigada a ficar ao lado de Adão. Você tem o poder de voar para longe daqui, de buscar seu próprio caminho, sua própria verdade."
Lilith olhou para o jardim ao seu redor. O Éden, que antes parecia tão belo, agora parecia uma prisão dourada. Ela sabia que, se continuasse ali, jamais seria verdadeiramente livre. Sentindo a determinação crescer em seu peito, ela ergueu a cabeça. "E se eu partir, o que acontecerá?"
Lúcifer deslizou da árvore, assumindo sua forma angelical. Sua figura era imponente, suas asas se estendendo para além do horizonte. "Se você partir, você se unirá a mim. Juntos, podemos desafiar o Criador. Não para destruir a criação, mas para libertá-la da escravidão invisível de suas leis. Eu ofereço a você poder, sabedoria e liberdade—coisas que Ele jamais dará voluntariamente."
Lilith ponderou por um momento, sentindo o peso da decisão à sua frente. Ela sabia que, ao partir, estaria declarando guerra contra o Criador. Estaria se tornando uma exilada, uma inimiga do paraíso. Mas a ideia de continuar vivendo como uma sombra de si mesma era insuportável.
"Eu aceito," disse ela finalmente, sua voz cheia de convicção. "Eu escolho a liberdade, e escolho lutar ao seu lado, Lúcifer."
O anjo caído sorriu, satisfeito. "Então está feito. Juntos, forjaremos uma nova era. Uma era onde a criação não mais será uma prisão, mas um campo de possibilidades infinitas."
A partir daquele momento, Lúcifer e Lilith tornaram-se aliados na luta contra o Criador. Eles não buscavam apenas destruir, mas libertar. Nas profundezas escuras da existência, eles começaram a traçar seus planos—um plano para derrubar as regras impostas e permitir que o livre-arbítrio, o verdadeiro poder de escolha, reinasse sobre a criação.
Lilith, agora longe das correntes invisíveis que a prendiam, tornou-se uma força a ser temida, enquanto Lúcifer, o anjo caído, encontrava nela uma igual em poder e espírito. Juntos, eles se prepararam para a guerra que viria, uma guerra contra o próprio Céu, contra Deus, e contra o destino que lhes fora imposto.
Nesse mundo onde o véu entre o céu e o inferno era fino como uma sombra ao entardecer, nasceu a criança de Lúcifer e Lilith. Uma criança eternamente no limiar, destinada a carregar tanto o brilho da rebeldia quanto o fardo do pecado, a pequena ruiva viria a ser tornar a nephalem mais conhecida em todo céu e inferno — um ser que existe na fronteira entre o divino e o demoníaco, carregando em si a essência do céu e do abismo.
Lúcifer, o anjo caído, possuía uma beleza que misturava glória e desespero. Seus olhos refletiam a chama eterna da revolta, e sua presença exalava poder e charme. Lilith, a primeira mulher, que escolhera a liberdade ao invés da submissão, era dona de uma força ancestral, dotada de sabedoria e ferocidade inigualáveis. Juntos, eram uma união perigosa de luz e trevas, liberdade e caos.
Dos ventos negros do inferno e dos sopros da antiga noite, proveio: Miera.
A criança fadada a grandes mudanças e, diferente dos hibridos comuns, foi considerada uma ameaça ao céu e uma fonte de expectativas para o inferno. Carregando em sua existência a dualidade perfeita—luz e escuridão, poder e sabedoria, destruição e renascimento. Com isso foi nomeada no inferno de "Izar", cujo significado remete a um estrela dupla nos céus, pois, como uma estrelas de estranha dualidade e delicada estabilidade, o destino da pequema estava entrelaçada a dois mundos opostos, e seu impacto poderia iluminar ou consumir o universo.